quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Ser praxista

Boas,
Como toda a gente faz comentários sobre a praxe, o Finos e fritos também tem de fazer um!

Primeira parte da minha bela composição dirige-se aos Caloiros (e futuros caloiros):
Eu tenho um irmão mais novo que daqui a uns anos irá ingressar no ensino superior. Seja em Coimbra ou em outro lado, vamos ter uma conversa séria que vai começar com "aproveita a universidade e nunca te esqueças, só doem as que ficam por dar!" sobre a praxe só lhe posso dizer "Zé, desemerda-te!"

Sejamos sinceros, com 17/18 anos toda a vossa educação terá que vir ao de cima, e se com esta idade não têm cabeça para julgar o que querem fazer ou não nas praxes desemerdem-se! Lá porque tiveram o azar de terem um doutor a dar-vos na cabeça que também não se comporta como um homenzinho que devia ser, a culpa de sairem de lá a chorar é vossa ou dos vossos pais que foram incompetentes na parte da educação!
Cresçam tomates! Com 17/18 eu preferi passar a "humilhação" (que não é realmente humilhação) de gritarem comigo e me levarem para os copos,  mas se não querem sair de baixo da saia da vossa mãe, a escolha é vossa. Podem utilizar o argumento de estar a ser praxado para fazerem o que vos apetece como caloriros... só é preciso que cresçam um par de bolas! Quando fui caloiro os meus padrinhos queriam que eu perguntasse a 25 raparigas se iam para a cama comigo, se fosse caloiro sabendo o que sei hoje teria-o feito! (Apanharia muito par de estalos ou teria sorte).
Com esta idade ias para a tropa com pessoal a gritar contigo de manhã à noite (caso alguma vez tenham conversado com o vosso pai sobre esse tempo vão saber), hoje em dia vais para o superior e se tiveres sorte, quem grita contigo também te paga uns copos no processo.

Eu estive sob praxe na sala do conselho de veteranos, e por muito horrível que isto pareça, foi bastante engraçado. Sim, esfreguei um mini frigorífico e bebi uns copos com os veteranos... E depois? Sempre mantive contacto com os donos do frigorífico, que nunca estava vazio, e sempre me trataram com respeito.
Tenho saudades do meu tempo de caloiro e foi um dos melhores anos que vivi. Talvez tenha tido uma experiência única em Coimbra por viver com 3 matemáticos que levavam aquilo a um extremo (ser matemático traz estas merdas), mas eu tive sempre a possiblidade de os mandar a eles e à praxe com o caralho! Agora só posso dizer, ainda bem que não o fiz embora tenha lavado demasiada louça! Foi um ano genial e ter uma experiência deste nível, mesmo que não tenham matemáticos à vossa volta, só depende apenas de vós Caloiros ou futuros Caloiros. Aproveitem este magnífico primeiro ano porque nunca mais voltará.

Segunda parte, aos anti-praxe:
Respeito a vossa opinião mas gostaria que a minha opinião também fosse respeitada. Respeito que não quiseram fazer parte do movimento praxe mas eu vivi a praxe e nunca fui humilhado, tudo o que leio que apontam à praxe eu nunca senti na pele... Mas respeito a vossa opinião e antes de falarem compreendam que eu sou praxista porque entendo que existem erros e falhas na praxe actual e o meu expoente máximo de praxista foi tentar melhorar a praxe para servir como um meio de integração e não de humilhação. Pelo menos eu tentei! É claro que não salvei o mundo mas fiz mais do que ser um treinador de bancada. Por isso façam lá os vossos comentários idiotas do respeito e igualdade, eu respeito a vossa opinião... mas com todo o respeito, vou ignorar-vos.

Terceira parte, aos pais:
Cuidado com a selecção natural. Eu sei que se esforçam para dar um mundo melhor aos vossos filhos, mas esforcem-se também para dar um filho melhor ao mundo e talvez isto comece a correr melhor...

Quarta parte, a quem anda a dizer que a praxe é fascismo que destroi a sociedade:
Isso só soa a queixas sobre o mundo em que vivem. Aturam o chefe aos berros os dias todos, tal como um caloiro na praxe, mas a diferença é que a seguir os praxistas levam-nos para os copos e melhor ainda, no ano a seguir somos nós a praxar. Como é que as coisas estão relacionadas? O vosso chefe alguma vez vos pagou um fino? Ganhem tino e importem-se com coisas importantes que podem influenciar o futuro da minha juventude em vez de andarem a tentar tirar-nos uma razão (se calhar das poucas) que nos faz dizer, adoro ser português! Porque todos sabemos que este país está completamente uma merda (frutos da vossa geração) mas pelo menos, durante uns anos, temos um vida completamente genial que nos vai dar sempre orgulho de termos aqui vivido e estudado.

E por último, aos meus padrinhos, ao afilhado único e colegas de praxe:
Um abraço e qualquer dia temos combinar um copo, sois grandes pessoas que eu acabei por conhecer num movimento que pelos vistos anda na boca do povo. Mesmo assim continuais bem vistos na minha memória. Se não for antes, pelo menos quando eu rasgar o traje!

Saudações académicas,

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Trepar árvores

para a sereia que me veio acordar,
Boas,

há dias lembrei-me de uma história de infância.Tinha eu mais ou menos sete anos, decidi que subir árvores me parecia fascinante e foi o que me pus a fazer sempre que tinha uma oportunidade. Encantava-me a sensação de chegar ao topo. Passar alguns minutos a ver onde posso apoiar os pés e para onde posso mudar as mãos sem mais preocupação nenhuma na cabeça para, com um bocadinho de esforço, me levantar no topo da árvore, olhar à volta e ficar super contente e com uma sensação de orgulho. Tinha corrido riscos porque a árvore parecia gigante, desobedeci ordens porque os meus pais disseram-me para não o fazer mas no fim, consegui fazer o que queria.
Era uma pequena amostra de uma sensação que, ao longo dos anos, vai ocorrendo cada vez menos. A sensação de ter chegado um pouco mais longe, ter feito algo fora da rotina e que muita gente não compreende porquê, que nos dá uma satisfação pessoal enorme. Mais tarde começamos a associar este prazer a muito menos acontecimentos. A um sucesso académico ou desportivo, a sair com uma recém-conhecida e acabar por trocar um beijo ao fim da noite, a ser promovido na empresa... Tudo coisas que, com a idade a passar, vão acontecendo cada vez mais raramente. Mas enquanto se é garoto basta subir a uma árvore e era o que eu fazia.

Continuando com a história, certo dia, parte da minha família foi lá para um canto qualquer em Portugal apanhar azeitona. Eu como era miúdo e ainda não podia ajudar assim tanto decidi procurar uma árvore para subir. Isto ainda demorou um bocado porque eu não queria uma árvore qualquer. Eu queria a maior. E já que não era suposto fazê-lo tinha que ser uma que estivesse um bocadinho longe do meu pai.
Olhando para trás, isto foi como sempre me comportei em relação a tudo. Tentar dar um passo maior que a perna. Quase nunca consigo chegar exactamente onde queria, o que acaba por trazer uma pequena dor, mas por outro lado tenho sempre a satisfação de me virem dar os parabéns porque fiz mais do que esperavam de mim e a felicidade de não ter sido tempo perdido.

Voltando às árvores, quando encontrei a que me parecia a mais interessante lá fui eu ramos acima. Ainda me assustei um bocado porque escolher a maior trás sempre alguns problemas mas em compensação trouxe uma vitória bem maior. Vitória esta que só me soube bem durante um pequeno momento... quando cheguei ao topo percebi que estava nevoeiro e não se via nada. Não podia gritar ao meu pai "pai, olha onde eu estou", porque não basta fazer uma asneira, temos que avisar toda a gente que a fizemos (pelo menos quando temos sete anos) e depois percebi que também não conseguia descer sozinho... A árvore era demasiado alta, eu era demasiado pequeno e é sempre mais fácil medir as coisas olhando de baixo do que olhando de cima. Lá tive de gritar à mesma para o meu pai mas algo como "pai, tira-me de onde eu estou".
O meu pai lá andou um bocado à minha procura, por causa do nevoeiro, e acabou por me ajudar a descer. Para criança, até foi uma história engraçada mas agora vem a parte triste... nunca mais tentei subir a árvore nenhuma.

O medo de falhar tirou-me algo que me dava bastante prazer na altura... porque é que fui tão fraco? Vá, tinha sete anos é certo, mas alguém podia ter-me dito para não desistir assim. Mas será que posso realmente culpar alguém por eu ter desistido? Poderia se agora nunca desistisse de nada que me deu prazer antes... mas será que não há coisas das quais desisti nestes últimos anos? Bastantes na realidade... porque não me lembrava desta história? Porque haveria de escolher um caminho fácil sem hipóteses de queda quando há tantas coisas que quero fazer? Novamente o medo de falhar que só os miúdos não têm... talvez o medo de partir a cabeça na queda. Mas alguém me veio mostrar que este medo não nos traz nada e a minha decisão de novo ano é só uma, voltar a querer dar um passo maior que a perna! O que podemos obter seguindo uma vida trivial resignados à sorte que vamos tendo? Muito pouco... sorte só tem um num milhão e não podemos esperar por ela. Daqui para a frente vou voltar a tentar esticar tudo ao máximo, chegar ao topo de todas as árvores que me der na cabeça que quero subir.

É claro que fazer isto vai sempre levar as pessoas a topos dos quais não conseguem descer. Vale a pena desistir por isso? Claro que não... haverá sempre alguém que vos ajude, tal como o fizeram para mim nestas férias, por isso coragem! Trepem uma árvore, liguem aos amigos para irem jogar um jogo de futebol como nos bons velhos tempos, convidem um amor não concretizado para tomar café, tentem pintar uma tela, aprendam um instrumento, saltem de pára-quedas... corram riscos e aproveitem cada topo a que chegarem! Para as pessoas que tiveram algo traumático na vida que os deixa sempre de pé atrás aqui vai a frase que um amigo meu me disse há umas semanas, "a estrada com pior alcatrão já a percorreste, agora aprecia a vida, vais ver que vai ser tudo melhor" e é o que vou fazer.

Se alguma vez me virem meio deprimido falem-me em trepar árvores que de certeza me vai ajudar e espero que acabe por ajudar alguém que leia o blog também. Um grande abraço,

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Feirantes

"Está calado e vai vender couves para a feira"
Garota da Guia, 1999
Bom dia,

Uma coisa que me aconteceu depois das minha férias na clínica foi que não consigo fazer nada sem pensar imenso primeiro. Um medo gigante de ter um comportamento parvo que vai fazer as pessoas terem pena de mim e pensarem, "é normal ele ser assim... depois do acidente não podíamos esperar que ele voltasse completamente ao que era". O medo de não medir bem uma frase que diga e acabar por ficar embaraçado. O medo de dar a entender a uma mulher que tenho interesse nela quando só a achei divertida e gosto de ter pessoas que me fazem rir à minha volta e principalmente o medo de contar uma história que é mal interpretada e as pessoas ficam a pensar mal de mim só porque não escolhi as palavras certas.

Embora este "pensar antes de fazer" seja algo que muita gente devia fazer muito mais, acaba por ser um pequeno entrave ao comportamento de uma pessoa. Vai haver mil coisas que ficam por dizer, abraços que ficam por dar, prendas por oferecer, elogios que ficam por dizer... deixa-me um bocadinho triste mas parece-me que é o comportamento normal das pessoas neste mundo por isso mais vale seguir a regra.

A linha de pensamento que o titanium me trouxe é a seguinte. Será que alguma vez fiz um elogio assim ou mandei uma boca parecida antes? Se sim, será que não fiquei envergonhado depois de o dizer? Caso até aqui não tenha chegado a nenhuma conclusão vem o último pensamento, será que a pessoa ao meu lado o diria? E esta é a pergunta que leva à parte fascinante da história e também ao título deste post.

Como muita gente sabe, na minha infância ia com os meus pais vender maçãs e alfaces para o mercado da Guia. Ter de acordar super cedo era super chato mas depois o mercado em si até era engraçado e acabou por me fazer aprender imenso. A primeira coisa que tirei dos mercados foi aprender a fazer contas de cabeça bastante rápido (na altura ainda não havia balanças com memórias, tudo contas à mão), habituei-me a guardar duas ou três contas na cabeça ao mesmo tempo (não temos filas para as caixas como no Continente e quando as senhoras começam a gritar temos que as atender depressa e várias ao mesmo tempo) e muito melhor que isto, aprendi a falar para as pessoas.

Num mercado, as pessoas não vão estar 40 minutos no meio dos corredores sem falar com ninguém para trocar 2 minutos de conversa com o caixa 
 - "xx euros. Tem cartão Continente?" 
- "Não". 
Dinheiro passa de uma mão para a outra. 
- "Aqui tem o seu troco, obrigado"
- "Obrigado",
mas passam 20 minutos na banca a falar sobre todo o tipo de coisas que viram ou lhes aconteceu durante a semana enquanto escolhem as nêsperas e depois há que ter em conta a relação cliente-vendedor. O vendedor tem de fazer o cliente sentir-se bem, ficar triste no dia em que os emigrantes saem de Portugal e ficar contente quando estão a fazer compras para um pique-nique de família (e às vezes ter de trocar de papel de um minuto para o outro). Também há os clientes habituais dos quais conhecemos as histórias e manias e temos de nos portar de acordo. Desde o homem que traz uma anedota nova todas as semanas e quer ouvir uma em troca, as senhoras que (pensam que) são mais importantes e querem ser atendidas mais rápido que toda a gente, os recém casadas que acabam sempre a falar com a minha mãe sobre as diferenças na nova vida, as pessoas que sabem um bocadinho de matemática e querem saber o que tenho andado a fazer (é só uma pessoa) e as que querem ouvir as minhas histórias de estar no estrangeiro...

Um monte de conversas que temos de medir bem antes de ter e embora passado algum tempo os clientes passem a ser conhecidos ou até amigos com quem vamos beber um café (ou convidamos para um jantar onde acaba toda a gente com os copos), há sempre as primeiras impressões onde temos de medir o que é que o cliente espera. Os novos clientes que vêm o processo como chegar, comprar e ir embora e tenhamos que falar de trivialidades (porque nunca é suposto estarmos calados) mas acabamos por não falar de nada pessoal, os clientes que gostam de se rir um bocadinho e no início temos de avaliar qual é o tipo de humor que devemos usar, que piadas sobre o governo ou a religião podemos fazer... todos estes pequenos detalhes sobre as pessoas e a vida delas que temos de compreender para as convencer que vale a pena comprar as nossas bananas.

Mesmo tendo demorado imenso tempo a reparar que o andava a fazer, passei a usar o mesmo método para toda a gente na minha vida. Dividi todos os meus conhecidos em pequenas áreas de acordo com como me posso portar com elas, mas como não as vou tentar convencer a comprar-me pepinos, divido também no que espero em troca e como tenho de ser para o conseguir. 

Dito assim até parece uma coisa um bocado má, quase que parece que tenho indícios de sociopatia. Mas por outro lado esta preocupação de seguir estas regras faz também com que pense imenso nos elogios que vou dar, na prenda certa para deixar as pessoas mais importantes para mim mais felizes e nas novidades que posso contar a cada pessoa para as fazer pensar "estou espantado, para alguém que passou pelos problemas que ele passou nunca esperei que chegasse tão longe".

Faz-me feliz ver que agora começa de novo a correr bem e faz-me ter orgulho em ter sido feirante por tudo o que isso me trouxe. Mas agora vem a parte triste da história... seguir estas "regras" faz-me pensar que me estou a afastar das pessoas. Só mostro a parte que quero a cada pessoa mas ninguém me vê como sou na realidade... e este problema tem me feito pensar imenso nas últimas semanas. Será que vale realmente a pena ser assim? Será que não era melhor ser mais aberto com toda a gente? 

É que eu era assim antes de ser cliente das terapeutas do Rehabilitation Hospital ali ao fundo da rua, depois, durante algum tempo dizia tudo o que pensava a toda a gente, passei pela fase de semi-deprimido em que não dizia nada a ninguém e agora, porque o cérebro é um sacana com um sentido de humor fodido, voltei ao que era. E tenho que acrescentar que durante o bocado que falava demais, estava convencido que o acidente me tinha tornado numa melhor pessoa. 

Voltar a ser como era fez-me um bocado de confusão. Será que estou muito melhor? Eu sinto que sim mas será que preciso de ser este feirante para estar bem? E agora vem o "silver lining" desta história, embora me parecesse que me estava a aparecer uma má faceta, na realidade só estava a voltar a ser uma pessoa normal nesta nossa sociedade... Foi preciso parar de me preocupar tanto comigo e ver os comportamentos de outras pessoas, pensar em histórias antigas e, sendo menos egocêntrico, olhar  também como toda a gente se portou nalgumas situações para reparar que, de uma forma ou de outra, somos todos feirantes e todos acabamos por seguir estes princípios... vender melões só me ajudou a ser um bocadinho melhor.

Um abraço,

PS: embora ela seja amiga de amigos e provavelmente nunca vá ler este post, ele é dedicado à garota da Guia.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

"Let's save Africa"

Em Coimbra tem existido um spam constante para todo o tipo de organizações internacionais a pedirem dinheiro pelas ruas, coisa que eu não sou contra, apenas me pergunto se eu tenho aspecto quem lhes vai dar algum. Não que eu ache que a causa seja nobre o suficiente, apenas não quero incentivar o sistema de pessoas a pedinchar na rua... Por isso nego-me a dar uma moeda a essa escumalha, prefiro gasta-la sabiamente num fino, ou uns fritos.

No seguimento do tópico encontrei isto: um "must see" do mundo da Internet:



E vós? Como fogem das ONGs?

PS: Se acharem que isto é demasiado drástico, desafio-vos a ir da portagem à câmara num dia aleatório sem tropeçarem em pelo menos uma pessoa a pedir-vos dinheiro... Eu não tenho conseguido.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

sei lá se é os chineses se é o....

Boas! Ora, antes de mais, deixem-me esclarecer que não sou racista, e não, não vou utilizar a velha piadola “tão depressa aperto a mão a um branco como o pescoço a um preto”, e peço desde já desculpa se ferir alguma susceptibilidade, mas duvido muito que algum chinês vá ler esta pequena dissertação. Devo dizer que a melhor pessoa pra fazer esta “cronica” neste momento devia ser a Mónica Alberto, uma vez que mora com 3 chineses, ao que parece, cada um mais peculiar que o outro. Bom, por conseguinte, como todos sabemos, os chineses estão por todo o lado, são, por assim dizer, o povo que melhor seguiu os manuscritos de Jesus Cristo nosso senhor “crescei e multiplicai-vos”. Sou uma observadora por natureza, mas gosto particularmente de observar o comportamento das pessoas, e é um deleite ver os chineses, enfiados nas suas atmosferas estranhas, únicas, com mil e um hábitos diferentes dos nossos. Mas no outro dia, observei algo que me intrigou bastante, e quanto mais penso nisso, menos explicações encontro… e agradeço imenso se alguém souber o porquê de tal comportamento! Ia eu a passear pelas ruas de Leicester, num belo dia sem chuva, o que é interessante, e eis que me deparo com um casal de chineses, moço e moça, mão dada e tal, MAS, o elemento masculino é que transportava a mala da senhora! Inicialmente pensei “mas que surto de cavalheirismo que aqui vai!”. Porém, continuando a minha jornada, depara-me com 2 outros casais com este mesmo comportamento, caso pra dizer “aqui há gato!”. Bom, poderia ser o dia internacional ou nacional do calendário chinês das boas maneiras, mas penso que não seria o caso, uma vez que, intrigada, perguntei a algumas pessoas “oh fulano, já viste um casal de chineses fazer x e y?” ao que me responderam “SIM”, com aquela entoação que sabemos perfeitamente o que significa: sabes porque raio fazem eles isso?”. Eu honestamente acho que o elemento feminino deste duo corre um grande risco. Mas que se passa na cabeça destas chinesas, pra confiar o seu bem mais precioso a um homem!!? Homens, eu sei que vocês têm as mais variadas e diversas habilidades, mas convenhamos, guardar coisas, não é o vosso forte! E as nossas malas, ai, são tudo! Até mesmo quando a coisa se resume a ir ali ao café da esquina comprar pastilhas, é tarefa que não se cumpre sem levar a mala! Sabe-se lá se naqueles 2 minutos não vamos precisar de retocar o gloss, sacar do lencito de papel, tirar uns pelitos com a pinça e o espelho, eu sei lá, uma imensidão de coisas! Mas as chineses lá andam, a correr este perigo!

Deixo-vos com este pensamento, mas peço-vos, se alguém souber a resposta a este enigma, por favor, “desembuxe”! Mónica, estou a confiar em ti pra levantares a pontinha do véu! 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

o Google assusta-me

Boas,

amanhã é dia de viajar de novo. Lembro-me de ser garoto e ficar todo entusiasmado quando tinha direito a andar de avião... fazer a mala era engraçado, passar todo o protocolo associado aos aeroportos, ver um sítio novo. É sempre genial.
Uns anos de doutoramento e começo a fartar-me disso tudo... não teria sido melhor ter arranjado um trabalho mais normal num sítio fixo e que não me obrigava a ser apalpado pelos seguranças uma vez por mês? Podia ser um trabalho menos interessante mas provavelmente mais simpático onde ia ter direito ver as velhas amizades e família regularmente...
O Google deve imaginar isso e como agora sabe demasiado da minha vida, só por ter acesso a todos os emails que escrevo e recebo e gerir o meu telemóvel com o Android, decide ajudar um bocadinho.
O telemóvel avisa-me uns dias antes sobre a viagem, o que tem a parte boa de me mostrar o número do bilhete e essas tretas todas que eles nos pedem no aeroporto, e também as temperaturas no destino. 26º hoje em Catânia e é junto à praia. Eu não lhe pedi para ele me mostrar estas coisas mas ele mostra só porque as sabe e sabe que pode vir a dar jeito.
Fora o medo do Google isto até me deixa entusiasmado... mesmo sabendo que a ideia é ir para lá trabalhar, os fins de semana são livres e vou ter direito a mais uns dias de praia, os italianos têm café decente e também produzem bom vinho. Vai ser óptimo.

Sobre eu me queixar sobre talvez não ter sido a melhor decisão ter decidido fazer um doutoramento não liguem demasiado... como li num livro muito interessante, Slaughterhouse-Five, or The Children's Crusade: A Duty-Dance with Death

"God, grant me the serenity to accept the things I cannot change,
The courage to change the things I can,
And wisdom to know the difference"

e estes meses foram tempo de mostrar a mim próprio que conseguia voltar a tentar fazer um doutoramento (o que ainda não consegui mas parece que vou ficando mais perto), quanto às coisas que não consigo fazer que sejam como eu queria só tenho que ser tranquilo, porque no fundo, de que vale estar triste com elas quando vou para a praia a meio de Setembro fazer alguma matemática. E também sei que qualquer dia volto a casa por isso nem vale a pena preocupar-me com mais uns meses de distância (casa quero dizer país, não a casa dos meus pais que aí eles obrigam-me a rachar lenha). 

Um abraço e pensem em fazer doutoramentos, é uma vida engraçada, (tirando os aeroportos)

PS: eu dei o crédito da frase ao livro porque foi lá que a encontrei mas na realidade é muito conhecida, é usada também nos alcoólicos anónimos e vem de uma oração católica que começou na América chamada Serenity Prayer, (que não vale a pena ler toda que descamba em "vive um dia de cada vez que Deus proporciona", mas a versão curta faz algum sentido).

domingo, 1 de setembro de 2013

É sem medo

Bons dias,

já não escrevo no blog há uns meses e, teoricamente, agora devia estar a tentar fazer alguma matemática mas em vez disso decidi vir para aqui escrever.
Gostava de escrever sobre Julho e Agosto, como foi andar de bicicleta na Holanda, beber uns copos de vinho por Portugal e ir às termas na Hungria. Mas não vai ser hoje... hoje queria só escrever sobre a minha última consulta no Royal Leamington Spa Rehabilitation Hospital.

Como bom aluno que sou, fui falar com o Miles antes de ir para Leamington e quando estava para sair, um professor que veio visitar o Miles fez a piada, "deves ser um dos melhores clientes da clínica". Não sei se ele estava a dizer, "estás no grupo dos mais inteligentes que lá vai" (o que é bem provável já que muitos nem conseguem falar) ou se sou dos que lá vai há mais tempo e mais vezes. Seja como for é um bocado verdade mas se eu aprendi alguma coisa nesta história toda é que nunca se tenta fugir dos hospitais... (fiz tudo para sair mais rápido do primeiro e depois fodi-me à grande quando estava em casa).

Fui um bocado mais cedo para poder comprar uma BD (Watchmen) caso me calhasse ficar muito tempo à espera da consulta... acabei por não a abrir. Embora tivesse de esperar meia hora, as terapeutas que me acompanharam na clínica durante meses ficaram todas contentes de passar essa meia hora a conversar comigo.
Da última vez que tinha conversado com algumas parecia-me que ainda me tratavam como um doente... sempre a típica conversa do "se correr mal não tem importância... já foi uma grande vitória estares assim". Na altura eu também tinha esse pensamento debaixo do metal por isso não me posso queixar muito mas desta vez, no fim de uns minutos a contar como me correu o ano e as férias, já faziam piadas e riam-se sem problemas, uma delas pediu-me para contar os novos boatos da minha vida e até achei que houve uma que estava para me convidar para sair. Parecia que desta vez, estar na clínica não ia ser assim tão mau.

Quando chegou à hora da consulta pensei que ia ser como nas outras... umas perguntas de rotina sobre a vida e depois uns testes aos movimentos, à memória e uns quantos de perspicácia. E acabou por ser assim, mas desta vez com um final diferente... 
Os testes correm optimamente, acho que já fiz tantas vezes o teste de dizer nomes de animais em inglês que agora já podia trabalhar no jardim zoológico, a pergunta de matemática era "quanto é 100-7?" e depois subtrair 7 a cada resultado que íamos obtendo. Estive quase para perguntar se havia algum truque na pergunta mas não... era mesmo essa a pergunta só que eles não sabem que eu aprendi a tabuada antes de aprender a falar senão não me perguntavam uma coisa dessas. O dos movimentos e visão também era um bocado fácil (eu estas férias até lenha rachei mas isso eu conto depois) e o teste de memória foi basicamente ouvir uma morada, 
    "John Marshall 
    24 Market Street 
    Spilsby
    Lincolnshire"
que eu tinha que dizer no fim da consulta. Eu avisei logo que me ia esquecer da palavra Spilsby porque nunca a tinha visto escrita e não significava nada na minha cabeça e assim foi. Mas tudo somado acabei por estar muito melhor do que ele esperava e já não havia nada que a clínica pudesse fazer por mim por isso aquela era a minha última consulta.

Depois leu o que a médica anterior escreveu quando fui a uma consulta em Janeiro. Basicamente escreveu que eu estava a abusar de mim... Não era suposto voltar tão cedo para um doutoramento e não devia ter decidido dar aulas. Queria que eu fizesse um teste mais extenso às minhas capacidades para que conseguissem encontrar cada problema que eu ainda tivesse (e tenho de admitir que ainda tinha bastantes) e pudéssemos trabalhar para os resolver e assim talvez viesse a correr tudo bem. 

Não cheguei a ir a essa consulta porque não vi a carta a tempo e tinha mudado número de telemóvel por isso não recebi a mensagem. O médico perguntou o que é que eu achava, ainda queria ir a essa consulta? Claro! Se ainda puder melhorar alguma coisa não vejo porque não. Ele disse que é noutro hospital mas ele ia falar com o médico... só que não acredita minimamente que eu precise da consulta por isso não vale a pena considerar que vá acontecer. A não ser que o outro médico esteja curioso para me ver, porque no fundo, sou um caso esquisito! Segundo as palavras dele, "quando chegaste à clínica e perguntaste quanto tempo achávamos que ias demorar a ficar bem para voltar ao doutoramento, nós sabíamos que essa pergunta não tinha resposta... nunca ias voltar! Afinal voltaste... Parabéns!"

Portanto relacionado com esta queda em específico já não volto à clínica e se tiver uma consulta vai ser só porque agora sou um rato de laboratório. Yeah! (E voltaram a dizer-me que querem escrever o artigo).

E pronto, é o final desta história! No fundo eu só fui ver como é que é para contar como é que foi. E como hei-de pôr as coisas agora... foi assustador, foi fodido, foi genial, foi exaltante, foi deprimente, foi triste, foi revoltante, foi... foi muita coisa. Tive que viver mais experiências em dois anos do que tinha vivido nos 24 até à hora do acidente e embora me tenha trazido a beleza e satisfação de apreciar bons momentos aos quais já não dava o merecido valor (e já imaginava ter perdido para sempre), também tive de lidar com o facto de, provavelmente, nunca conseguir cumprir os objectivos de vida que já tenho desde os meus 16 anos... 

Mas o tempo passa e às vezes, no fim de muitos meses sempre com o pensamento de que nem vale realmente a pena desejar nada da vida para não acabarmos desiludidos, tudo melhora. Ainda me vai ser difícil acabar o doutoramento num ano (que é o tempo que vou ter bolsa) mas se acabei o curso um ano mais cedo do que devia agora também vou conseguir acabar o doutoramento a tempo (mesmo tendo partido a cabeça pelo meio).

Eu sei que muitas vezes não consegui chegar perto da pessoa sempre confiante que era mas isso, mesmo tendo demorado imenso tempo, já passou. Agora vou aproveitar a tranquilidade que veio depois de todos aqueles "foi" e viver como sempre vivi... a esticar sempre as coisas ao máximo para ver até onde consigo chegar e acima de tudo, rir-me e divertir-me.

Para acabar só quero dizer que, estando esta história acabada, agora é preparar-me para a próxima aventura que a vida me traga! Pode ser algo muito bom ou pode ser outra história fodida mas venha o que vier sei que tenho família e amigos sempre ao meu lado e isso é o que me faz olhar para o futuro e dizer "é sem medo"!

Um grande obrigado a todos e vou ver se vou dormir, 
(ter "alta" do hospital foi motivo para celebrações)